IDEAL X REAL
Estado que estrutura, família que ancora, escola que transforma. A frase, quase um aforismo, desenha um cenário de harmonia perfeita. Nele, o poder público fornece os alicerces, o lar oferece a base emocional e moral, e a sala de aula opera o seu papel: a busca pelas aprendizagens. É uma engenharia social irretocável (no papel). Na prática cotidiana do Brasil, no entanto, essa engrenagem frequentemente gira em falso, e o peso de suas engrenagens desalinhadas costuma esmagar justamente a ponta mais vulnerável: o indivíduo, deixando rastros (marcas nos profissionais da educação, nas famílias que geram expectativas, na escola que sofre consequências…).
Olhar para essa tríade com maturidade exige, antes de tudo, despir-se de romantismos.
Comecemos pelo Estado: atribuir-lhe o papel de estruturador é reconhecer sua função primária de garantir dignidade básica como – segurança, saúde, infraestrutura e o próprio financiamento da educação. Contudo, o que se observa na realidade brasileira é um Estado hiperbólico no discurso e raquítico na entrega. Quando o transporte falha, quando a violência urbana dita o horário de recolher de uma comunidade afavelada ou quando a burocracia asfixia a gestão pública, o Estado não estrutura; ele desorganiza a vida do cidadão. Uma estrutura que segrega mais do que integra e entrega deixa de ser um porto seguro para se tornar um labirinto de sobrevivência (sem mapa!).
É nesse vácuo que a família é chamada a ancorar. A metáfora da âncora é feliz por evocar estabilidade, mas perversa quando ignoramos o estado das águas onde essa âncora é lançada. Exigir que a família seja o arrimo moral e afetivo inabalável pressupõe uma estabilidade socioeconômica que milhões de lares não possuem. Em um país de jornadas exaustivas, inflação persistente e lares cheios de mães e pais aflitos que acumulam triplas jornadas, a “ancoragem” muitas vezes se resume a garantir o prato de comida na mesa. Transferir a responsabilidade do fracasso civilizatório para a suposta “desestruturação familiar” é um salvo-conduto injusto para as falhas das políticas públicas.
Por fim, deságua-se na escola, à qual se delega a missão quase milagrosa de “transformar”. Há aqui um duplo perigo: o do esvaziamento e o do excesso de expectativa. Por um lado, a escola não pode ser reduzida a um depósito de estudantes ou a um mero centro de treinamento para o mercado de trabalho técnico. Por outro, ela não tem como compensar, sozinha, a ausência do Estado e os gargalos da comunidade. Quando a escola precisa atuar como refeitório principal, posto de assistência social e mediadora de conflitos psicológicos profundos, sobra pouco tempo (e energia) para a sua atividade fim: o conhecimento, o letramento científico e a formação do pensamento crítico. A transformação vira um slogandistante diante de tetos que caem e professores desvalorizados e infelizes.
O equilíbrio dessa equação não está em isolar culpados, mas em redistribuir as cargas de forma honesta, equilibrada e justa.
A escola só transforma se a família ancorar as expectativas de futuro e o respeito ao saber. A família só consegue ancorar se o Estado estruturar as condições mínimas de dignidade e segurança econômica. E o Estado só estruturará de fato quando a sociedade, transformada pela escola, aprender a cobrar seus governantes técnica e democraticamente, e não de forma puramente passional ou ideológica.
O trio: Estado, Família e Escola, não é uma fórmula mágica de três engrenagens independentes; é um ecossistema, coexistem. Enquanto insistirmos em exigir que a escola resolva o que cabe ao Estado e que a família negligencia (ou não consegue evitar), continuaremos a produzir belas frases de efeito para esconder muitos defeitos.
O fato é que a verdadeira transformação social (tão falada) começa no dia em que o Estado estruturar, a família apoiare a escola ensinar — sem que um precise carregar o fardo do outro, essa é a engrenagem em pleno funcionamento.
